Um dia me vi na beira de um precipício. Tinha percorrido os
vales da dor e as montanhas do medo. Arranhei-me com os espinhos da decepção e
feri-me com a tristeza.
Então cheguei ao fim... vi um abismo no meu caminho.
Desafiava-me a transpassa-lo. Sabia que morreria se me arriscasse e não
chegaria ao outro lado.
Entardecia, a brisa era fria e as nuvens escondiam o calor
do sol, mas não apagavam seu brilho assim tão facilmente.
Cansada de lutar contra mim e contra a vida, parei e me prostrei
diante do meu obstáculo. Cheguei ao meu limite e no limite dele também.
Sentei-me na beira do precipício e pus-me a observar a vida.
Antes de pular quis respirar, talvez pela última vez, o ar
puro das emoções. Deixei-me levar...
Voei nas asas do pensamento. Lembrei-me dos meus sonhos...
De como desejava viver plenamente e conhecer a felicidade nos meus dias.
Lembrei-me de quando era uma criança. Das arvores que subia,
das flores que colhia e dos frutos que adoçavam minha velha infância.
Como foi bom ser criança... Ser livre! Pude sentir naquele
momento o coração disparar com essa doce recordação. Senti o cheiro de mato, da
flor de laranjeira, da terra molhada... ouvia minha avó me chamar com um pedaço
de bolo nas mãos! Que saudade eu senti...
Voltei em mim. Senti o cheiro de mato, o perfume de uma
laranjeira e um botão de rosa branca me fazia companhia. Esfreguei meus olhos,
pensei ser um sonho. Não era!
Como era possível¿ Aquele momento era para ser o fim! Não
reparei no auge da minha angustia e desespero, que bem ao meu lado estava a
vida, em todo seu esplendor!
O sol se pondo coloria o firmamento. As flores perfumavam o
vento. O entardecer anunciava a majestade da noite. Os pássaros cantavam se
despedindo do dia e, em seus ninhos se escondiam. A vida me apresentava um
espetáculo singelo no palco da existência... onde tudo fora feito simples e
belo desde a sua nobre essência.
Não queria morrer, queria viver! Não queria sofrer, queria
vencer! Era minha dor que queria matar, por ansiar a vida e deseja-la tão
fortemente, a dor não suportava sentir.
Machuquei-me muito nesse caminho que percorri, mas entendi
que a felicidade morava em mim... eu que nunca percebi!
Compreendi que a felicidade está nos pequenos detalhes da
vida. Que ela é leve e simples, e só a encontra, os sensíveis!
Percebi que meu maior erro foi ter calado minha criança. Foi
ter esquecido minha infância! Entendi a importância de nutrir em nós essa
criança... Ela torna nossa vida mais espontânea!
Por fim, o que seria o fim tornou-se começo. E hoje eu agradeço...
ao Criador e à vida, por nunca terem desistido de mim. Pois foi tentando fugir da dor que me perdi...
mas foi a um passo do fim que descobri, que há sempre uma esperança aos olhos
de uma criança...dessa que mora em mim. E que me mostrou que a felicidade nunca
se ausentou do caminho por onde vim... É que só agora me permiti sentir!
É no auge da dor e desespero que encontramos a felicidade...
pois é quando mais sinceramente desejamos possuí-la!
Texto de Meireane Pontel.

Nenhum comentário:
Postar um comentário