quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A um passo do fim




Um dia me vi na beira de um precipício. Tinha percorrido os vales da dor e as montanhas do medo. Arranhei-me com os espinhos da decepção e feri-me com a tristeza.
Então cheguei ao fim... vi um abismo no meu caminho. Desafiava-me a transpassa-lo. Sabia que morreria se me arriscasse e não chegaria ao outro lado.
Entardecia, a brisa era fria e as nuvens escondiam o calor do sol, mas não apagavam seu brilho assim tão facilmente.
Cansada de lutar contra mim e contra a vida, parei e me prostrei diante do meu obstáculo. Cheguei ao meu limite e no limite dele também. Sentei-me na beira do precipício e pus-me a observar a vida.
Antes de pular quis respirar, talvez pela última vez, o ar puro das emoções. Deixei-me levar...
Voei nas asas do pensamento. Lembrei-me dos meus sonhos... De como desejava viver plenamente e conhecer a felicidade nos meus dias.
Lembrei-me de quando era uma criança. Das arvores que subia, das flores que colhia e dos frutos que adoçavam minha velha infância.
Como foi bom ser criança... Ser livre! Pude sentir naquele momento o coração disparar com essa doce recordação. Senti o cheiro de mato, da flor de laranjeira, da terra molhada... ouvia minha avó me chamar com um pedaço de bolo nas mãos! Que saudade eu senti...
Voltei em mim. Senti o cheiro de mato, o perfume de uma laranjeira e um botão de rosa branca me fazia companhia. Esfreguei meus olhos, pensei ser um sonho. Não era!
Como era possível¿ Aquele momento era para ser o fim! Não reparei no auge da minha angustia e desespero, que bem ao meu lado estava a vida, em todo seu esplendor!
O sol se pondo coloria o firmamento. As flores perfumavam o vento. O entardecer anunciava a majestade da noite. Os pássaros cantavam se despedindo do dia e, em seus ninhos se escondiam. A vida me apresentava um espetáculo singelo no palco da existência... onde tudo fora feito simples e belo desde a sua nobre essência.
Não queria morrer, queria viver! Não queria sofrer, queria vencer! Era minha dor que queria matar, por ansiar a vida e deseja-la tão fortemente, a dor não suportava sentir.
Machuquei-me muito nesse caminho que percorri, mas entendi que a felicidade morava em mim... eu que nunca percebi!
Compreendi que a felicidade está nos pequenos detalhes da vida. Que ela é leve e simples, e só a encontra, os sensíveis!
Percebi que meu maior erro foi ter calado minha criança. Foi ter esquecido minha infância! Entendi a importância de nutrir em nós essa criança... Ela torna nossa vida mais espontânea!
Por fim, o que seria o fim tornou-se começo. E hoje eu agradeço... ao Criador e à vida, por nunca terem desistido de mim.  Pois foi tentando fugir da dor que me perdi... mas foi a um passo do fim que descobri, que há sempre uma esperança aos olhos de uma criança...dessa que mora em mim. E que me mostrou que a felicidade nunca se ausentou do caminho por onde vim... É que só agora me permiti sentir!
É no auge da dor e desespero que encontramos a felicidade... pois é quando mais sinceramente desejamos possuí-la!

Texto de Meireane Pontel.

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