É natural me ver parada, olhando fixamente em alguma direção e inerte nas avenidas do meu pensamento.
Agradeço a Deus pelo dom que ganhei de transformar em palavras, mesmo que em simples palavras, tudo aquilo que sinto e penso.
Fui fazer uma entrevista de emprego na mais paulista das avenidas, sim, estava na Avenida Paulista. Coração empresarial de São Paulo.
Já era tarde quando o processo de seleção terminou. Não tinha sido aprovada. Saí com pressa rumo ao ponto de ônibus. Estava frio e a ausência de sol no céu anunciava o início de mais uma noite gelada na capital.
Enquanto meu ônibus não chegava, observava as pessoas ao meu redor no mesmo ponto. Meio chateada, preocupada, mas observava. A grande maioria eram trabalhadores da mesma avenida. A grande maioria, de boa aparência e bem vestidos socialmente. E acreditem, esperando o ônibus comigo!
Ao lado do ponto, um carrinho de lanches. Um senhor vendia cachorro-quente. A pesar da simplicidade, o cheiro estava abrindo meu apetite e encenando a fome no teatro da minha imaginação.
Foi aí que vi algo que me comoveu de dentro pra fora. Foi lindo, mas era triste. Era triste, mas foi lindo!
Havia chegado no mesmo ponto, um menino. Maltrapilho, pés no chão, pouca roupa para as baixas temperaturas que estavam por vir, pouca higiene e muita fome no olhar. Estava, como eu, observando, o carrinho de cachorro-quente.
Um moço, bem vestido, calça social, jaqueta e mochila nas costas, comprou para si um daqueles lanches e refrigerante. Sem se importar com o olhar esfomeado do garotinho, degustava com gosto sua refeição.
Só aquilo já fora o bastante pra me comover. Mas, como a vida é um palco onde a maioria e também as melhores cenas, são improvisadas, apareceu um anjo.
Sim, um anjo. Tenho certeza que Deus cuida dos seus independentemente da situação, condição, cultura ou etnia. Esse anjo chegou, parou do meu lado, desceu do seu skate e acendeu um cigarro. Todo tatuado, com um alargador enorme na orelha. Evidenciava sua rebeldia, mas preferiu camuflar o que de melhor possuía, um coração generoso e humano.
Não demorou muito pra ele perceber o que matava aos poucos o brilho no olhar daquela criança. Escutei quando pediu um cachorro-quente "especial" e recomendou, "capricha"! O lanche ficou pronto em pouco tempo e aquele moço o pegou, chamou o menino, e entregou satisfeito o lanche naquelas humildes mãozinhas.
Então o que eu vi em seguida me comoveu profundamente. O menino, a pesar da fome estampada na face, parou por um tempinho e olhou tão comoventemente para o rapaz, como se quisesse lhe agradecer com as melhores palavras que não tinha, naquele momento. Mesmo em silencio, seu olhar disse ao moço, as melhores palavras de agradecimento.
Aquilo foi emocionante. Tão emocionante que, por estar bem perto, pudi notar o olhar emocionado do nosso anjo rebelde. O rapaz pegou seu skate nas mãos, falou alguma coisa para o menino e seguiu seu caminho. O menino também... Foi para a entrada de um edifício e acreditem, dividiu seu lanche com mais um menino e um cachorro.
Meu ônibus chegou. Eu e outras tantas pessoas daquele ponto subimos. Mas meus pensamentos não saíram daquele lugar. E acho que acompanhou aquele garotinho pra entrada do edifício.
Não pude deixar de pensar como as aparências enganam quem apenas enxerga com os olhos do interesse. Quantas pessoas mais intelectuais e cultas do que o nosso anjo estavam observando a mesma cena e não fizeram nada. Ou melhor, ignoraram por completo a miséria alheia... de uma criança ainda!
Não pude deixar de pensar em como aquele garotinho iria se proteger do frio que fazia, onde dormiria e dos perigos que correria.
E isso desencadeou um pensamento muito mais complexo e sério. Me fez pensar nos anônimos do teatro da existência Quantas pessoas que tem as ruas como endereço, o chão duro e frio como cama, a noite gelada como teto, e muitas vezes, o perigo como companhia.
Quais são suas histórias? O que as levaram a tomar tal escolha na vida? Será que tiveram ao menos uma escolha ou a vida lhe impôs essa condição tão desigual, tão indigna?
Passamos por esses anônimos inúmeras vezes nas estradas da vida e nem sequer os notamos.
Frutos, muitas vezes, de lares desestruturados, de drogas e álcool, ou em outras vezes, vítimas das misérias psíquicas de mentes doentes em ruínas. Não tiveram apoio, não tiveram ajuda tão pouco criam em uma saída para seus problemas. Jovens ou não, todos sofreram grandes dores, todos tiveram seus grandes motivos para chegarem um pouco além do fundo do poço.
Nós, deuses e semideuses da sociedade, não temos a menor ideia do que é morar nas ruas, do que é estar exposto a violência, a doenças, a fome... ao preconceito!
Quando leio num livro ou vejo um documentário sobre pessoas que buscaram força e fé onde só havia pobreza e dificuldades como essa e venceram na vida, fico emocionada! Me enche de confiança essas histórias reais de superação de quem já foi um simples anônimo na vida. Verdadeiro exemplo que sonho é a chama que mantém o fogo da vida aceso. Passo a dar mais valor em mim e em tudo que tenho, quando tenho a chance de observar a luta pela sobrevivência de quem possui a vida como seu único bem pessoal.
E essa é apenas uma das tantas histórias que desenham os retratos da vida real. E esse é apenas um texto feito com sentimentos sinceros e palavras simples, mas verdadeiras de quem ama observar a linda arte da existência!
Texto de Meireane Pontel

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